Quando falamos de segurança, pensamos imediatamente em hospitais, medicamentos, cirurgias ou alimentos. Dificilmente associamos esse conceito ao cabelo. No entanto, todos os dias milhares de pessoas aplicam substâncias no couro cabeludo, iniciam tratamentos, recorrem a procedimentos químicos ou utilizam medicamentos sem saberem exatamente o que estão a tratar nem quais os riscos envolvidos.
Talvez esteja na altura de começarmos a falar de segurança capilar.
Durante décadas, o cabelo foi encarado quase exclusivamente como um elemento estético. Essa perceção contribuiu para a ideia de que qualquer problema capilar poderia ser resolvido com um novo produto ou uma receita recomendada por alguém. Hoje sabemos que essa realidade é muito mais complexa.
O couro cabeludo é um tecido vivo e o folículo piloso responde continuamente às alterações do organismo. Uma queda persistente, uma descamação intensa ou uma inflamação não são, por si só, um diagnóstico. São sinais que podem estar associados a causas muito diferentes entre si e que, por isso, exigem abordagens igualmente distintas.É precisamente aqui que a segurança capilar ganha relevância.
Na prática clínica, uma das situações mais preocupantes não é, muitas vezes, a doença em si, mas o tempo que se perde até chegar ao diagnóstico correto. Há pessoas que passam meses, por vezes anos, a experimentar sucessivos produtos porque acreditam que ainda não encontraram a solução certa. Enquanto isso, algumas patologias continuam a evoluir silenciosamente, tornando o tratamento mais difícil e, em determinados casos, comprometendo de forma definitiva o folículo piloso.
O problema raramente está na falta de opções. Está, muitas vezes, na tentativa de tratar um sintoma sem compreender a sua origem. A facilidade com que hoje acedemos à informação também trouxe novos desafios. As redes sociais aproximaram o conhecimento das pessoas, mas aproximaram igualmente a desinformação. Entre recomendações virais, testemunhos pessoais e promessas de resultados rápidos, tornou-se cada vez mais difícil distinguir aquilo que é sustentado pela evidência científica daquilo que resulta apenas de experiências individuais.
É natural procurar soluções em quem parece transmitir confiança. O problema surge quando a confiança substitui o conhecimento técnico. Nem todas as quedas capilares têm a mesma causa. Nem todas as descamações correspondem ao mesmo problema e nem todos os tratamentos que funcionaram para uma pessoa serão adequados para outra. Em saúde capilar, as soluções universais são quase sempre uma ilusão. É por isso que a primeira pergunta não deveria ser “qual é o melhor produto?”, mas sim “qual é o diagnóstico?”.
Existe, no entanto, uma outra questão que continua a ser pouco valorizada: quem está a orientar os nossos cuidados capilares? Aceitamos, com naturalidade, perguntar pela formação de um médico antes de uma cirurgia ou de um fisioterapeuta antes de iniciar um processo de reabilitação. No entanto, quando o assunto é saúde capilar, raramente questionamos as credenciais, a preparação técnica ou a experiência de quem recomenda um tratamento. E, no entanto, estamos igualmente a confiar a essa pessoa uma parte da nossa saúde.
Questionar não é desconfiar. É exercer um direito enquanto cidadão e assumir uma atitude responsável perante a própria saúde.
Falar de segurança capilar não significa incentivar o medo nem desvalorizar o trabalho dos inúmeros profissionais competentes que existem na área. Significa, antes de mais, defender uma cultura em que o diagnóstico antecede o tratamento, em que as decisões são tomadas com base na ciência e em que a proteção da saúde está sempre acima das tendências ou das soluções rápidas.
Talvez esse seja o maior desafio da tricologia nos próximos anos, ajudar a sociedade a compreender que cuidar do cabelo não começa na prateleira de uma loja nem na recomendação de um vídeo de poucos segundos. Começa com conhecimento. E a verdadeira segurança capilar nasce precisamente aí.
Texto: Dina Moreira – Tricologista e fundadora da empresa Jornada Capilar



