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Feito Por Ellas

A saúde da mulher angolana não pode continuar a ser um assunto silenciado

Há 10 anos que atendo mulheres nas maternidades e consultas de ginecologia em Angola. Nesse tempo, vi mães a perder a vida por complicações que se evitam com um simples exame a tempo, vi mulheres a esconder o corpo por vergonha da menstruação, vi doentes a chegar tarde demais porque não sabiam reconhecer os sinais do próprio corpo. Vi, sobretudo, silêncio.

Um silêncio que mata mais do que muitas doenças: o silêncio à volta da saúde da mulher. Foi desse silêncio que nasceu o Santu Muhatu, o projecto social que fundei para enfrentar problemas que, à primeira vista, parecem distintos, mas que na prática se alimentam uns aos outros: a gravidez na adolescência, vulnerabilidade menstrual, a falta de educação em saúde íntima e, de forma mais ampla, o défice de cuidados que acompanham a mulher angolana em cada fase da sua vida.


Uma saúde pensada em função do corpo do homem. Um dos problemas mais profundos que enfrento na prática clínica é estrutural: os serviços de saúde em Angola ainda não estão desenhados a pensar na mulher como utente central. As unidades sanitárias concentram-se, sobretudo, na gravidez e no parto, ainda assim, com enormes limitações de acesso, sobretudo fora de Luanda. Mas a saúde da mulher não começa e nem termina na maternidade.
O que fazemos, por exemplo, pelo rastreio do cancro do colo do útero, uma doença que continua a matar mulheres angolanas em idade produtiva por falta de exames simples e acessíveis?

O que fazemos pela saúde da mulher na menopausa, uma fase da vida praticamente ausente do discurso público e dos cuidados de saúde? O que fazemos pelas mulheres com miomas, endometriose e infertilidade?  Condições essas que por vergonha ou desconhecimento, muitas vezes só são tratadas quando já comprometeram anos de qualidade de vida.


A menstruação:

Há um segundo silêncio, mais discreto, porem igualmente violento: o da vulnerabilidade menstrual. Em muitas comunidades angolanas, mulheres e raparigas vivem a menstruação sem acesso digno a pensos higiénicos, sem água nem casas de banho adequadas nos locais de estudo e trabalho, e com a ideia enraizada de que se trata de algo sujo, algo que se esconde. Não é exagero dizer que a pobreza menstrual é uma forma de exclusão social e económica que atravessa toda a vida da mulher, da escola ao emprego.

 Uma mulher que falta aos estudos todos os meses por falta de um produto básico, ou que desenvolve infecções recorrentes por usar materiais inadequados durante anos, paga um preço que raramente é reconhecido como problema de saúde pública. E isto acontece não por falta de capacidade das nossas mulheres, mas por falta de acesso a um produto básico e de informação básica sobre o próprio corpo.


Educar para prevenir:

O que une estes dois problemas é a mesma raiz: a falta de educação em saúde íntima. Continuamos a criar meninas e mulheres que não conhecem o seu próprio corpo e ciclo menstrual, que não sabem identificar sinais de alerta ginecológico, que têm vergonha de perguntar ao médico aquilo que deveriam ter aprendido em casa ou na escola. E continuamos a criar rapazes que crescem sem qualquer noção de responsabilidade partilhada na saúde sexual e reprodutiva. Como ginecologista, vejo todos os dias as consequências desta lacuna: infecções não tratadas por vergonha, gravidezes não planeadas, mulheres que só procuram cuidados quando já é tarde.

Como fundadora do Santu Muhatu, escolhi não ficar apenas na consulta a tratar as consequências, escolhi ir às comunidades, às escolas, aos bairros, para tratar da causa, mexer na base para não abalar a estrutura.


O que precisa de mudar:

A saúde da mulher angolana não vai melhorar apenas com mais camas de maternidade ou mais medicamentos, por muito necessários que sejam. Vai melhorar quando:

  • Se quebrar o silencio sobre o corpo da mulher, o acesso aos serviços de saúde para a mulher fora de luanda, forem instalados e funcionais em pequenas comunidades.
  • A educação sexual integral entrar de facto nas escolas, desde os primeiros anos, sem tabus e sem meias palavras;
  • O acesso a produtos de higiene menstrual for tratado como uma questão de saúde pública e de direitos humanos, e não como um luxo;
  • O acesso ao diagnostico for gratuito, ou custar menos que o preço do pão, para que não haja desistências por parte da mulher em buscar o mesmo.  
  • As comunidades, os líderes tradicionais e religiosos e as famílias tornarem-se parceiros activos na proteção das meninas e mulheres, em vez de, por vezes, serem parte do problema;
  • O Estado e a sociedade civil investirem em programas de proximidade que cheguem às adolescentes e mulheres antes da gravidez, antes da desistência escolar, antes da patologia se instalar de forma irreversível e do silêncio.

Angola tem hoje uma geração de mulheres com potencial enorme. O que falta não é capacidade, é informação, acesso e dignidade. É por isso que continuo, todos os dias, entre o consultório e o terreno, a insistir que falar abertamente sobre o corpo da mulher não é vergonha: é saúde, educação e futuro.
O silêncio já nos custou demasiadas meninas e mulheres. E está na hora de o quebrarmos em conjunto.

Texto:  Nádia da Costa

 Médica ginecologista-obstetra, fundadora do projecto social Santu Muhatu

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